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você não lê Bukowski, você o devora…

o estouro

demais
tão pouco

tão gordo
tão magro
ou ninguém

risos ou
lágrimas

odiosos
amantes

estranhos com faces como
cabeças de
tachinhas

exércitos correndo através
de ruas de sangue
brandindo garrafas de vinho
baionetando e fodendo
virgens

ou um velho num quarto barato
com uma fotografia de M. Monroe

há tamanha solidão no mundo
que você pode vê-la no movimento lento dos
braços de um relógio

pessoas tão cansadas
mutiladas
pelo amor e desamor

as pessoas não são boas umas com as outras
cara a cara

os ricos não são bons para os ricos
os pobres não são bons para os pobres

estamos com medo

nosso sistema educacional nos diz que
podemos ser todos
grandes vencedores

eles não nos contaram
a respeito das misérias
ou dos suicídios

ou do terror de uma pessoa
sofrendo sozinha
num lugar qualquer

intocada
incomunicável

regando uma planta

as pessoas não são boas umas com as outras
as pessoas não são boas umas com as outras
as pessoas não são boas umas com as outras

suponho que nunca serão
não peço que sejam

mas às vezes eu penso sobre
isso

as contas dos rosários balançarão
as nuvens nublarão

e o assassino degolará a criança
como se desse uma mordida numa casquinha de sorvete

demais
tão pouco

tão gordo
tão magro
ninguém

mais odiosos que amantes

as pessoas não são boas umas com as outras
talvez se elas fossem
nossas mortes não seriam tão tristes

enquanto isso eu olho para as jovens garotas
talos
flores ao acaso

tem que haver um caminho

com certeza deve haver um caminho sobre o qual ainda 
não pensamos

quem colocou este cérebro dentro de mim?

ele chora
ele demanda
ele diz que há uma chance

ele não dirá
“não”.


( O amor é um cão dos diabos, pg. 159)

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